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Por que a Kroton e a Ser disputam a Estácio

Todas sofreram com o corte drástico no FIES, mas Estácio se mostra um ativo importante para suas concorrentes diversificarem na crise econômica.

A Ser Educacional estudava uma proposta de fusão com a Estácio desde o final de 2015. O plano era apresentá-la em meados de agosto, quando provavelmente, já estaria aprovada uma nova regulamentação sobre o Ensino a Distância (EAD) no Brasil. Ao tomar conhecimento pela imprensa de que a Kroton, líder do setor de educação no país, estava com a mesma ideia, os executivos apressaram o passo. Ontem (06/06), a Ser, o maior grupo de educação do Nordeste, enviou ao conselho da Estácio a ideia da fusão. A combinação das duas empresas daria origem a uma companhia com 740 mil alunos e R$ 4 bilhões em receita.

Após focar nos últimos dois anos na aquisição e consolidação de grupos de educação menores (como a Universidade Guarulhos), a Ser agora quer ganhar presença no setor de ensino à distância. “A Estácio tem um EAD grande, maduro, e nós apenas iniciamos. Juntas, conseguiríamos polarizar o que temos hoje em termos de competição”, diz Jânyo Diniz, diretor-presidente da Ser à Época NEGÓCIOS referindo-se à força da Kroton neste quesito.

A Ser enxerga a fusão como uma “complementaridade”, tanto em termos geográficos, quanto de mercado. “A região Norte e Nordeste, por exemplo, é uma em que nós competimos hoje. Mas conseguiríamos criar uma fortaleza ali, que não seria excessiva e poderia ser expandida. Já a Estácio é muito forte no RJ e, em SP, poderia complementar nossas operações”, diz Rodrigo Alves, diretor de Relações a Investidores.

Outra questão apontada pelo executivo refere-se às marcas dos grupos. “Nós operamos hoje em um sistema multimarcas, enquanto a Estácio é expert em trabalhar com a questão da marca única. Poderiamos reunir essas duas expertises ao criar uma companhia três vezes maior”, afirma Alves. O portfólio, por exemplo, incluiria marcas como UNINASSAU, Estácio, UNAMA, UNG, Joaquim Nabuco e UNISEB.  A companhia combinada teria uma participação dos acionistas atuais da Estácio de 68,7% e dos acionistas atuais da Ser Educacional de 31,3% e continuaria aberta na Bolsa.

No momento, a Ser aguarda o conselho da Estácio se posicionar. Em fato relevante publicado ontem (05/06), a empresa afirmou que montou um comitê com quatro executivos para analisar a proposta recebida e uma eventual sondagem da Kroton. Na última quinta-feira, a Kroton confirmou os rumores a respeito de uma possível oferta. Segundo a nota, a empresa estuda “uma potencial combinação de negócios”, algo que traria “ganho de eficiência” e “fortalecimento dos investimentos na qualidade dos serviços educacionais”.

A fusão faz sentido?

Independente do par que vier a ser formado, analistas apontam que a fusão faz sentido em um momento que o setor de educação não cresce de forma orgânica – muito em parte por conta da redução drástica ocorrida no FIES. Além disto, a crise econômica proporciona ambientes favoráveis à novas aquisições ou fusões em um setor que, acostumou-se a crescer, por este modelo. “Talvez não vimos uma aquisição maior antes porque o FIES vinha muito forte. Mas agora com a questão do menor orçamento federal e do redimensionamento do programa é muito difícil contar com ele no futuro”, afirma Ricardo Kim, analista-chefe da XP Investimentos.

Segundo Kim, a Estácio apareceu como oportunidade pois foi a que teve maior desvalorização entre as grandes. “O setor inteiro sofreu muito. Mas a Estácio acabou ficando atrás em termos de evaluation. Não é que os investidores a veem como mal posicionada. Pelo contrário – tem boa marca, bom posicionamento geográfico, diversificação forte no EAD. O que houve é que a Kroton viu uma oportunidade”, disse. O analista também lembra do perfil agressivo da Kroton. “A Estácio é um ativo muito relevante, mas a Kroton – ainda mais com a Anhanguera – já mostrou um histórico de aquisições grande e um bom trabalho em sinergia”.

Como ponto forte do lado da Kroton também aparece sua gestão. “Eles são um case em termos de gestão eficiente, principalmente no que vem fazendo nos últimos cinco anos”, disse Daniel Infante, da Educa Insights. Por outro lado, veem maiores empecilhos regulatórios em uma fusão dela com a Estácio do que com a Ser. “Basta lembrar o caso da Anhanguera, quando a Kroton precisou se desfazer de uma ativo importante no EAD”, diz Infante.

Estudo realizado pela Educa Insights avaliou o quanto cada fusão poderia gerar riscos em termos de competitividade em uma eventual análise do Cade. O órgão regulatório considera irregular toda fusão ou aquisição que gere, entre as instituições que a compõem, 30% ou mais do número total de alunos de uma cidade. Ou seja, número ultrapassado, a empresa teria que se desfazer de algum ativo. Em uma possível fusão com a Kroton, 75 cidades brasileiras ultrapassariam este limite . Destas, 69 ocorrem por conta do EAD – reflexo da capilaridade da Kroton neste sistema. Seguindo a mesma análise, uma fusão entre Ser e Estácio, levaria à mira do Cade, apenas 5 cidades brasileiras onde o volume de alunos ultrapassaria os 30%. A fusão com a Ser, portanto, teria maior chance de passar incólume pelo Cade.

Para a Ser, analistas concordam que seria uma diverficiação importante em um momento de crise econômica, que teria uma aprovação mais fácil no Cade e que não seria um movimento tão drástico dentro do setor de educação brasileiro.  A percepção geral, contudo, é que a Kroton se manterá ainda bem à frente na liderança do setor.

Qualidade do ensino

Analistas, contudo, não creem que a fusão – seja qual for – traria um eventual salto de qualidade no ensino superior hoje disponível no Brasil. E isto não deve-se à um dos três grupos em específico. Pelo contrário, as operações da Ser, Kroton e Estácio são vistas como eficientes dentro do que o mercado hoje exige – um modelo que privilegia a gestão da operação, mesmo que implique em perda de qualidade. “Não tem segredo. Não existe você crescer do jeito que elas crescem mantendo o nível de qualidade. Em termos acadêmicos, a fusão muda pouco. Em termos de mercado, há a pulverização de mercado, que vai ser mais expressiva”, disse Infante.

Outra questão apontada é a própria regulação do setor de educação que cria uma estrutura “amarrada em currículos e que torna caro promover um ensino de qualidade. “A capacidade instalada é absurdamente gigante, mas não tem matéria prima de qualidade para transformar em desenvolvimento”, diz professor João Batista Araujo e Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto.

Batista afirma que as empresas operam de forma competente seguindo as regras que hoje o setor estabeleceu. Uma delas, parte de uma demanda da própria sociedade, ao estabelecer que a “universidade é um mundo que todo mundo tem que frequentar para crescer.

“Há uma inconsciência coletiva no Brasil de que não há salvação fora da faculdade. Mas nós não temos uma educação básica de qualidade que prepare as pessoas e vemos alunos que insistem nos cursos apenas para buscar uma suposta remuneração lá na frente”, afirma. Cria-se uma cultura de frequentar a aula e pagar as mensalidades, mas que não engaja ou de fato capacita-se.

Para Infante, o maior desafio que esses grandes grupos de educação têm hoje é conseguir gerenciar seus clientes de forma mais eficiente. Na prática, significa, tornar o aluno fiel à marca e ao estudo. “Quem de fato forma uma marca é o aluno que está lá dentro. Hoje, o que vemos, é um jogo de volume, do preço mais acessível, que joga lá para baixo a fidelização. No médio, longo, prazo, é algo insustentável”.

No EAD, o especialista cita que 95% dos alunos que chegam à este método de ensino vieram de um sistema no qual estavam acostumados à sentar na sala-de aula e ouvir o professor a falar. “É preciso mudar também essa mentalidade para que eles de fato consigam aprender sozinhos”.

Fonte: Época Negócios

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