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Mercado de Ensino Superior Privado em estado de Alerta

por Elisa Wolynec

O setor de ensino superior privado passa por uma crise que demanda mudanças de rumo. Muitas instituições expandiram-se e outras novas foram criadas, seguindo os modelos tradicionais de uma ou duas décadas atrás, sem levar em conta que o contexto do mundo globalizado e a explosiva evolução das tecnologias de informação e comunicação produziram uma profunda mudança no perfil do profissional valorizado pelo mercado, bem como nas expectativas dos alunos. Soma-se, ainda, o fato de que o público é outro, tanto em termos de poder aquisitivo, quanto em formação pré-universitária. Mercado_01

Um dos sintomas da crise é a elevada inadimplência do setor quanto comparada ao restante da economia. Enquanto o número de cheques devolvidos em 2005 foi de 2,81% do total, e a inadimplência nos cartões de crédito não passou de 9% em 2005[1], segundo o SINDATA do SEMESP, no setor de ensino superior privado do Estado de São Paulo a inadimplência voltou a subir atingindo 23%, equivalente a um número médio de 187 mil alunos inadimplentes.

Essa elevada taxa, segundo os mantenedores, é conseqüência da legislação vigente, a chamada “lei do calote”, que dá ao aluno inadimplente o direito de continuar freqüentando a instituição. Isto certamente contribui, uma vez que diante de dificuldades financeiras o indivíduo vai priorizar os pagamentos cuja penalidade é maior em casos de atraso. Entretanto, não devemos nos iludir, este não é o único fator.

Na realidade, os outros fatores preponderantes são: insatisfação dos alunos com os cursos e custo de mensalidades acima do poder aquisitivo do público que a instituição pretende atender. Esses dois fatores devem ser atacados simultaneamente pelas instituições que planejam ter sucesso e expandir-se.

Quando um aluno percebe que o curso está lhe agregando valor, que o que está aprendendo o entusiasma e lhe proporciona crescimento como indivíduo e como profissional, ele fará qualquer sacrifício para poder custear seus estudos. Como todo e qualquer empreendimento, a instituição educacional precisa conhecer o seu aluno e acompanhar o seu nível de satisfação com a instituição. A freqüência do aluno às aulas, disciplina a disciplina, é uma medida eficaz e imediata da satisfação do aluno. A avaliação de todos os docentes pelos seus respectivos alunos, ao final de cada semestre, fornece indicadores sobre os docentes cuja didática precisa ser aprimorada.

Na maioria das instituições, tanto a estrutura curricular dos cursos quanto o método pedagógico utilizado precisam ser revistos, visando a diminuição de custos e o aumento da satisfação do aluno. Não há mais espaço para cursos seriados, estanques. A simples mudança de cursos seriados para um sistema de créditos, que possibilita uma formação mais flexível e também a matrícula por disciplina, em vez de por serie, ou por módulo, já diminui a inadimplência. Em situações de dificuldades financeiras o aluno faz menos disciplinas por semestre, em vez de desistir do curso.

Os cursos de mesma área de conhecimento devem ter um ciclo básico, onde várias disciplinas possam ser utilizadas por diferentes cursos, gerando turmas maiores, o que diminui o custo-aluno, além de propiciar uma base de formação mais generalista e permitir que alunos interessados em diferentes cursos convivam e troquem idéias.

Na Mercado_02interatividade do dia-a-dia atual dos alunos, com a rapidez das comunicações a nível global, via Internet, mensagens instantâneas, torpedos e toda a multimídia que nos cerca, não há aluno disposto a sentar-se passivamente na sala de aulas escutando o professor a recitar conhecimentos. A mente humana precisa ser desafiada para evoluir. Os alunos precisam praticar e discutir com seus pares os conceitos apresentados na aula, desenvolver habilidades de trabalho em equipe, desenvolver raciocínio crítico e capacitar-se na solução de problemas. O diploma por si só já não garante emprego, o que garante é o conjunto de habilidades e competências adquiridas.

Felizmente, com as tecnologias atualmente disponíveis, é possível propiciar um ambiente de ensino aprendizagem que atende a todas essas necessidades e diminui custos. É que os alunos expostos a um ambiente de tecnologia que lhes permita executar atividades práticas, envolver-se em discussões com seus pares, sintetizar suas idéias em trabalhos, buscar e analisar informações para a solução de problemas, necessitam de um número bem menor de aulas presenciais. Dessa forma, através de um projeto pedagógico que combine atividades presenciais e a distância, é possível melhorar muito a satisfação do aluno, os resultados da aprendizagem e ao mesmo tempo diminuir custos pela diminuição da carga horária docente.

O desafio a ser enfrentado, pelas instituições que querem crescer e contribuir para uma educação de qualidade, é imenso e depende de uma maior profissionalização da gestão. É necessário planejar as metas que devem ser atingidas e executar a implementação dessa reformulação, a qual envolve uma profunda mudança no relacionamento da instituição com seus docentes. Estes devem preparar-se, participar e contribuir para o desenvolvimento dos métodos pedagógicos demandados pelo atual contexto sócio-econômico.

O Coordenador de Curso deve atuar como um Gerente de Negócios do curso e ser responsável pela sua qualidade, prestígio e resultados financeiros. Para desempenhar esse papel ele precisa ter acesso a indicadores de desempenho, em tempo real, para poder monitorar o desempenho de alunos e docentes, implantando mudanças de forma ágil, sempre que necessárias.

Via de regra, os mecanismos de gestão das instituições de ensino, são ineficientes e inadequados. Mesmo em boa parte das que possuem cursos de formação em Administração e até MBA’s, a gestão da instituição é artesanal, não lançando mão dos modernos mecanismos de gestão que ensinam aos seus alunos. A maioria dos mantenedores ainda acredita que basta comprar um ERP, se possível o de menor custo, para profissionalizar a gestão.

É claro que um bom sistema financeiro-contábil, por exemplo, identifica os custos e agiliza boa parte dos trâmites burocráticos. Entretanto, uma diminuição significativa de custos só se obtém com a otimização da carga-horária docente, do preenchimento de turmas e do uso dos demais recursos didático-pedagógicos. Para isso é necessário um sistema inteligente de Gestão Acadêmica e não um mero automatizador de processos burocráticos. O pior, ainda, é que muitas vezes automatizam processos que deveriam ter sido abolidos.

A inadequação da maioria dos sistemas utilizados fica evidente ao se visitar as instituições e observar a quantidade de alunos esperando para serem atendidos pela secretaria, a quantidade de funcionários envolvidos com esse atendimento e a cara de insatisfação desses alunos.

Por traz disso estão sistemas incapazes de fornecer aos gestores da instituição os indicadores e informações que subsidiem, de forma confiável, o planejamento e a tomada de decisão por parte de seus líderes e dirigentes.

Diante disso o aluno fica com uma impressão de incompetência e atraso tecnológico por parte da instituição. A insatisfação já começa na primeira matrícula e antes do primeiro dia de aula.

Muitas instituições estão investindo mais em marketing do que na adequação de seus cursos às necessidades do mercado. Frustrar as expectativas é o caminho que leva mais rapidamente ao fracasso.

O rumo a ser seguido para o sucesso é centrar todo o foco na aprendizagem, no valor agregado ao aluno típico da instituição. Oferecer formação diferenciada em relação aos seus concorrentes diretos. Otimizar o uso de recursos, para tornar acessível a um maior número de alunos, uma educação de qualidade.


[1] Segundo artigo publicado por Renato Marques no Universia, http://www.universia.com.br/materia/materia.jsp?materia=9972

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